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O Carnaval entre o Negócio e a Exclusão: Reflexões sobre o Racismo e a Segregação

  • Foto do escritor: juristasnegrasdomi
    juristasnegrasdomi
  • há 7 horas
  • 3 min de leitura


A imagem poética do Carnaval como o momento de união entre as classes no Brasil esbarra, ano após ano, na realidade das cordas, dos abadás e dos camarotes que fatiam o espaço público. O que deveria ser a suspensão temporária das divisões sociais tornou-se, na verdade, um palco de desigualdade, onde a festa popular foi dominada pela lógica do lucro e do capitalismo. Assistimos a uma transformação onde o direito ao lazer e à cidade virou um artigo de luxo acessível apenas a quem tem dinheiro. O conforto, a segurança e a infraestrutura deixaram de ser garantias do cidadão folião para se tornarem privilégios de quem pode pagar por metros quadrados de exclusividade, aprofundando o abismo da desigualdade em pleno solo público.

Essa organização da exclusão desenha uma divisão nítida tanto no Rio de Janeiro quanto em Salvador. No cenário carioca, o Sambódromo da Marquês de Sapucaí tornou-se o símbolo máximo desse distanciamento. Enquanto as escolas de samba apresentam fantasias luxuosas e enredos que exaltam a história do povo, os ingressos para os setores que permitem avaliar de perto a beleza do evento atingem preços irreais para a maioria dos trabalhadores. A passarela do samba foi cercada por camarotes monumentais, onde o espetáculo vira um fundo para festas privadas da elite. Assim, a população que constrói a escola de samba durante todo o ano, muitas vezes nas favelas e periferias, é impedida de ocupar as arquibancadas para ver o fruto do próprio trabalho, restando a ela os setores mais distantes ou apenas a imagem pela televisão.

Já em território baiano, a história dos blocos democráticos sofre com o desgaste provocado por grandes empresários que, ao privatizarem trechos da cidade com estruturas temporárias de alto custo, empurram as camadas mais pobres para as margens da festa. Nessas zonas de sobra, a população negra e periférica enfrenta não apenas a falta de serviços, mas uma exposição maior à violência, revelando que a gestão do espaço urbano no Carnaval é, acima de tudo, uma ferramenta de controle social.

Em Salvador, a cidade mais negra fora da África, essa realidade assume traços de um apartheid festivo oficial. A capital baiana vê seus circuitos serem retalhados por cordas que separam fisicamente quem faz parte do espetáculo e quem é apenas força de trabalho ou “pipoca” segregada. É uma contradição óbvia: a estética, a musicalidade e a cultura que atraem o mundo são produzidas pela população preta, mas essa mesma população é confinada aos espaços superlotados e vigiada de perto pela polícia, que prioriza a bolha de segurança dos grandes blocos. Há, ainda, o peso de um turismo que ocupa a cidade de forma invasiva, muitas vezes desrespeitando os moradores locais com o apoio de governos que veem no lucro a única medida de sucesso.

O poder público, atraído pelo dinheiro do turismo, parece esquecer do cuidado com o cidadão local. O investimento do dinheiro público, que deveria apoiar a cultura de base e os artistas da terra que mantêm a chama do Carnaval acesa o ano inteiro, é frequentemente gasto com cachês milionários para atrações de fora. Isso gera um apagamento da identidade regional e a desvalorização do patrimônio da cidade. Diante desse cenário, resta questionar até que ponto a democracia sobrevive na avenida. O que se observa é que a democracia passou longe dos circuitos oficiais. O Carnaval tornou-se um balcão de negócios onde a população que realmente constrói a festa sofre nas mãos de gestões que olham para o cartão-postal, mas fecham os olhos para o povo que, apesar de tudo, resiste em cada fresta de asfalto.


(Por Monique Damas)

 
 
 

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